Possibilidades de um silêncio


O som do meu relógio anuncia o novo dia chegando. Um misto de euforia, angústia, me toma conta. Talvez, seja toda a complexidade de meu coração que me impede de racionalizar minhas emoções.

Ainda com meus olhos embaçados de sono, sento na cama. Ao colocar meus pés no chão, de imediato, um leve arrepio percorre meu corpo. Está frio. Sinto meus pensamentos escorrer por entre meus dedos. Levanto-me e ao olhar meu reflexo no espelho, percebo minhas bochechas róseas e meus olhos brilham profundamente.

Queria poder lembrar do sonho que tive.

Vou até a janela e a abro. Num instante todo o mar de nuvens que se eleva no céu toma conta do meu corpo. Seu tom cinza parece revelar minha essência. Por um instante, parece que sei todas as respostas que procuro. Porém, o ar frio que infla meu peito me trás de volta à minha realidade e ela parece ser totalmente diferente do que me lembro.

Não sei que quarto é esse. Não sei onde estou.

Que lugar é esse?

Coloco uma roupa que estava próxima a mim e saio correndo para tentar encontrar alguém. Procuro em todas as portas que encontro pela frente.

Que casa é esta?

Cheguei em um lugar que parece uma cozinha. Diversos sentidos reaparecem com o aroma que ali está. Saboroso a ponto de minha boca salivar. Na mesa há pétalas de rosa que a forram, como uma toalha, e entre elas há grandes morangos, tortas, sucos, pães, talheres, cristais…

Estou com fome.

Será que posso comer?

Quando percebo, já estou comendo. O tato, paladar, cheiro, visão se misturam como a brisa suave e fria que passa por mim. Ao meu redor há diversos móveis e pinturas deslumbrantes que me chamam a atenção. Satisfeita dos alimentos, começo a andar entre elas e uma pintura retem meu olhar mais atento. Nela há uma imensa árvore com suas flores lilases com o vento passando por ela e milhares de pétalas voando. O céu, também, é cinza. Um cinza claro. Na plantação de trigo, que ali existe, crianças brincam e há grandes montanhas completando a imagem. Espanto-me ao verificar que bem escondida tem uma pequena casa. Sinto que tem uma pessoa dentro dela e chegando mais perto e quase fechando meus olhos para enxergar verifico o pequenino brilho dos olhos da pessoa. Com um enorme susto, meu coração dispara. A pessoa da pintura sou eu.

Um extremo medo me toma e ao tentar correr a casa toda se transforma. Agora, cheia de móveis rústicos, parece ser uma cabana. Vou até a porta e ao abri-la uma enorme ventania entra com milhões de pétalas.

Meu Deus. Estou dentro da pintura. Como isso aconteceu?

Ao verificar a imensa árvore vários sentimentos inundam minha mente. Fecho a porta com medo e sento na frente dela tentando esclarecer tudo o que acontece. Lágrimas caem sem mesmo eu entender o porquê. Mas, percebo que não é tristeza e sim, alegria.

Lembrando das crianças que vi na pintura decido ir procurá-las. Talvez estivessem lá. Abro a porta e em meio ao vento, pétalas e trigos saio em busca. Ao verificar atentamente o caminho ouço um grito distante. Olho para trás e um enorme conforto me toma. Lá longe está o que procuro. Um novo grito. É meu nome. Quem grita me conhece e de certa forma o conheço também. A voz é familiar.

Corro e nada mais que isso. Esqueço tudo o que estava acontecendo. Só quero chegar até ele. Borboletas parecem estar na minha barriga.

Estou chegando. Estou chegando.

Vendo-o, instantaneamente, começo a chorar novamente. Estou tão feliz. Ainda correndo tropeço numa raiz que ali se encontrava e antes mesmo de cair sinto-o me segurando. Com firmeza me sustenta e pergunta:

– Olá! Como está, minha querida? Estive te esperando.

A agonia em minha garganta de tanto correr não me deixa dizer mais nada. Uma lágrima de dor do tropeço cai. Suas mãos quentes me tocam a secando.

– Está tudo bem agora, você me encontrou. Não precisava fazer todo esse esforço. Nunca percebeu? Olhe para suas costas!

Assustada, olhei. Eram asas. Asas como de borboletas.

Como nunca as percebi? Como nunca senti?

Olhando para meus olhos profundamente soube que sabia tudo sobre mim. Minhas alegrias, fraquezas, delicadezas…Tudo.

– Elas sempre estiveram aí. Sempre pôde voar. Lembre-se sempre disso. Seu mundo é maravilhoso e sempre estarei por perto em seu coração para tudo o que precisar.

Segurando minhas mãos com firmeza começamos a voar. Era incrível. Não conseguia nem respirar mais. E fomos cada vez mais alto e mais alto. Logo, milhares de estrelas cintilam no reflexo dos olhos dele. Paramos em meio ao mar de nuvens.

– Se um dia precisar de mim, olhe-as [apontando para o céu]. Serão os reflexos do seu coração. Meus olhos.

Não resistindo lhe dei o mais doce e conforto abraço. Fechei meus olhos.

O som do meu relógio anuncia o novo dia que está chegando. Hora de acordar.

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