Um sonho


Perco-me olhando, neste espelho, os olhos castanhos que não deixam mentir minhas ilusões. Quem será o observador? Quem vive num infundado delírio subjacente?

Imagino-me num grande e profundo poço onde, talvez, o outro lado seja a realidade que aspiro encontrar.

Quando torno a olhar a porta, o elevador, finalmente, chega ao seu destino. Saio para o corredor que me leva à grande avenida. Uma avenida que não é para carros, e sim para pessoas.

Mudei-me há pouco tempo e não me canso deste lugar agitado. Desconhecidos de todos os tipos andam perdidos em seus mundos particulares. Restaurantes e bares antigos esbanjando suas estruturas clássicas secular, alguns até mesmo feitos com ouro que refletem os pequenos pincéis de luz do sol. A avenida é composta de apenas uma pista, criada com o túnel verde de árvores gigantes enfileiradas, levando os desejos e anseios humanos que ali passavam.

Ao abrir a porta do corredor para sair, um ar gélido do aroma que as árvores exalam inflou meus pulmões. Senti-me vivo. Meus pés me levaram ao único restaurante que continha mesas para o lado de fora e me sentei em uma delas. O garçom veio até mim, seu rosto era triste e talvez eu pudesse enxergar as lágrimas nunca choradas, mas como um fantasma foi embora com meu pedido de uma água. Um dia, certamente, sentirei falta de ter perguntado o nome dele. Parei para observar os seres apressados perguntando-me se alguém ali estaria angustiado. Será que é querer demais ajudar e conhecer todos que passam por mim?

Perdi a noção do tempo e não vi minha água chegando, só sabia que de algum modo ela estava na minha mesa. Aquele fantasma tinha passado por mim novamente. Realmente gostaria de saber o nome dele, talvez um oi amigável. Mas, meu coração dizia que eu precisava sair dali, e entrei no túnel. Comecei a andar para o sentido que meu corpo mandava. Ele deveria saber onde estava o lugar certo. Bebi um pouco da água e a rapidez me fez engasgar. Tinha pressa. Andei e andei até os altos prédios se transformarem em casas. Tinha saído do túnel e agora, as árvores estão mais espaçadas, mas, ainda sua altura elevava pequenos olhos que não as conheciam.

Agora, já sei onde estou indo. O lugar tornou-se confortável para meu péssimo senso de direção. Sabia que ela deveria estar por lá. Não pensando mais, segui pela rua até encontrar uma casa com seu portão branco recheado de pequenos detalhes prateados. Ali estava cheio de pessoas. Não conheço ninguém. Sinto alguém me tocando delicadamente nas mãos, que está um pouco fria, um calor entra em transição e resolvo me virar. Nunca poderia esquecer esses olhos que tanto me chamou a atenção desde o primeiro segundo que os vi. Os únicos que me deixaram com ansiedade de aproximação e que me envolverão num desejo de conhecer a pessoa que lançava o olhar capaz de acelerar meu coração. E ele está acelerado agora. As bochechas dela estavam róseas por causa do vento. Seu iminente sorriso me contagiou. E com um tom um pouco rouco da voz disse:

– Pensei que você nunca viria.

Dei meu olhar de conforto, acho que ela entendeu meu recado. Eu sempre estaria por perto, mesmo que minha mente a esquecesse, minha alma se lembrava. Ela está puxando minha mão, me guiando por uma viela onde eu li que era um lugar sem saída. Vendo o final da pequena rua percebo que há um abismo. Irônico aquela placa dizer que é sem saída… Um tanto materialista. Mas, isso não importa. Ela soltou minha mão e agora corre em direção ao abismo. Meu coração dispara… Ela vai se jogar. Uma agonia que cresce dentro de mim me impede de gritar, só quero correr. Ela para e abre os braços, como uma borboleta que dança ao vento. Ofegante e assustado cheguei até ela. Ela me olhou. Não consigo impedir minha vermelhidão. Parece que consegue ler meus pensamentos, porque ela pisca e dá um leve sorriso. Ela diz:

-Este é meu lugar preferido.

Agora que o sol está se pondo percebo as luzes surgindo de uma cidade, muito longe, no fim do grande abismo. Uma visão espetacular. Consigo ver com perfeição o horizonte e o ar frio que reinava naquele local impediu as nuvens de aparecer revelando as pequenas estrelas que apareciam. E com essa visão, nos sentamos num banquinho que estava próximo à beira. A mistura das cores do céu vai acabando e a noite surgindo. Milhões de estrelas como num passe de mágica surgem. Os olhos dela brilham. Ela me olha, sei que não precisamos dizer uma palavra. Tudo ali é indefinido. Agora sei que a realidade que eu queria não está do outro lado do espelho. Está aqui. Agora. Neste momento.

Desabafo de uma década que está acabando


Nada. Nada acontece quando não sei realmente o que faço. A vida torna-se meramente limitada a ver, ouvir, sentir com significados tangíveis de ser entendidos. Hora perco-me ao tentar conhecer a mim mesmo, hora disfarço entender…

Pacotes de tempos são perdidos e estendidos à meras ilusões, delírios passíveis de ser enterrados em lágrimas extenuadas. A mais pura sensibilidade que os anos e segundos me ensinarão , são limitados ao fim.

Voo ao vazio, partindo de um coração sem vida, sem melodia; era o único que poderia retirar o barulhento silêncio que teima em invadir os raros e tenros sonhos que por vezes aparecem.

Não me canso de esperar aparecerem…

Mas, vícios subvencionados por uma cultura degradada que não deveriam ocorrer, ocorrem. Sinto-me sujo, nada é límpido, nada satisfaz, nada é suficiente.

Escorrem desesperos pelo olhar…

GRITO….. vazio

GRITO….. ninguém

No fim, nada e nada acontece.

Por isso parto, parto para a nova década. A liberdade de meus infortúnios pesos indolentes, que calejaram meus porques cansados, torna-se aparentemente visível. Súplicas são ditas ao vento para que, de encontro a ele, possa libertar toda borboleta que um dia aprisionei em minhas mãos.

Alguém consegue ouvir meu grito de adeus? A Deus?

Talvez, minha existência está a um passo. Na próxima montanha. Na próxima curva. Na próxima pessoa. Na próxima…

Parto-me